eheads na rp.
como alguns sabem, mantenho uma coluna de e-music na revista rockpress (!). acho legal estar num ambiente diferente e passar a msg para quem n é do ramo. da mesma forma como la na sala 2 da bunker toco numa noite de rock e nao raro vejo cabeludos com camisas do led zeppelin se esbaldando ao som de hard house, electro, trance ou techno. o lance é interferir. so, let's do it.
aqui vao as copias de alguns artigos publicados la na rp nos ultimos dois anos:
#18
O HARDCORE DIGITAL
Esqueça tudo que você já ouviu de música barulhenta. Nada - nada mesmo - se compara ao peso do gabba. É a versão eletrônica do hardcore. Ou, como prefere Alec Empire do ATR, o hardcore digital para a geração cyberpunk.
A cena nem é tão nova assim: começou a surgir em meados de 1992, na época do boom do techno, na Inglaterra. Mais forte em países como a Bélgica, a Ale- manha e a Holanda, foi começando a atrair fãs de outros países da Europa. Só agora os ingleses estão começando a prestar atenção no estilo.
Gabba é, basicamente, a repetição ultra-rápida de batidas eletrônicas, com samplers totalmente alterados - e na maior parte das vezes irreconhecíveis - de bandas como Black Sabbath, Pantera, Fear Factory etc. O fato de guitarras de bandas de rock pesado serem sampleadas não faz com que o resultado seja parecido com o som convencional que estas fazem; estes samplers não têm outra função além de fazer com que a música seja a mais barulhenta possível. O Fear Factory, banda americana de Los Angeles, é um bom exemplo de uma banda que tem namorado bastante com o estilo. Eles já lançaram várias versões gabba para músicas como ""New breed" e "Steel gun mix", por exemplo.
Como todo estilo musical hoje em dia, o gabba também se divide em subgêneros. Há a versão hardcore (com músicas violentas e letras repletas de palavrões) e o happy hardcore (que utiliza a batida, mas as letras são bobas, beirando o ridículo). Nem é preciso dizer que os gabbers mais radicais (entre eles, skinheads) odeiam a galera happy/hippie. Por outro lado, há o hardcore digital do Atari Teenage Riot, que não se julga uma banda gabba e lança vários grupos pelo selo DHR.
Contudo, em geral a podreira vence. DJ Torture, DJ Cocksucker, DJ Fistfuck... Estes são apenas alguns dos nomes "simpáticos" que os DJs de gabba costumam ter. Tradicionalmente, este estilo tem nada menos do que 200 bpms (batidas por minuto), o que é bastante rápido - mal dá para dançar/pogar.
Gabba (termo que vem do holandes "gabber", camarada) não tem nada a ver com bandas como o Prodigy, por exemplo. É muito mais pesado. A música é tão rápida e barulhenta que os expoentes da cena aconselham as pessoas a usarem protetores de ouvido quando estão num clube, pois as chances de haver algum problema de audição são enormes! Que o digam os ouvintes da Pirate Radio, que dedica algumas horas de gabba nas madrugadas dos finais de semana.
Entre alguns clássicos do gabba incluem-se Ultraviolent Life of Descructor, lançado na Inglaterra em 94 - uma coletânea essencial para quem quiser conhecer o estilo; e o D.O.A., ou Disciples of Annihilation, que inclui, para se ter uma idéia, uma música com samplers de "Fucking hostile", do Pantera. É só imaginar isto em cima de uma batida techno, três vezes mais rápido! Este é um exemplo tipico do intenso e nervoso mundo gabba. Música só para quem tem ouvidos de aço.
P.S. : o único disco de gabba/digital hardcore lançado no Brasil foi Welcome to TerrorDrome (96), da RoadRunner
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# 19
A VERSÃO BRANCA E INGLESA DO HIP-HOP
Existem pessoas desinformadas (como um leitor que escreveu para a RP passada e foi devidamente esclarecido), que acham que eletrônica não é música e que techno é tudo igual. Bom, é o mesmo que dizer que rock é tudo a mesma coisa e afirmar que punk não sabe tocar e que o blues é repetitivo. Para um leigo, todas essas afirmações são positivas (tanto no rock quanto no
techno), mas quem tem bons ouvidos e mentes abertas sabe que não é bem assim.
Hoje, a música eletrônica (chamada de modo geral de techno, o que não reflete
toda a vasta gama de estilos que o termo engloba - aliás, o termo "techno"
virou palavra da moda por aqui usada por qualquer picareta que quer promover dance comercial) é tão rica e diversificada que a cada dia surgem novos conceitos, rótulos e estilos para justificar uma nova batida. Como o rock
nos anos 60 e 70.
Um desses estilos, cada vez mais popular, é o big beat. A grosso modo ele
seria a versão branca e inglesa do hip-hop americano (já que a versão negra
e inglesa, do gueto, é o jungle/drum and bass), mas ele tem um pezinho no
rock, também. Hoje, o rei da cocada preta no gênero é o dj/produtor Norman
Cook, mais conhecido como Fatboy Slim (o funk soul brotha), que no passado
fez parte do projeto Beats International (cujo disco saiu aqui em 90) e
tocou baixo nos Husemartins, grupo pop britânico dos anos 80 que fez um
certo sucesso no Brasil por conta da babinha "Bild"??? (que toca até hoje em FM
flashback). Com o estouro de "Rockafella Skank", o disco You’ve Come A
Long Way, Baby é um dos maiores fenômenos da eletrônica. E ele não depende
apenas do hype. O disco é bom pra caramba, como o Bart atestou na RP
passada.
Contudo, quem abriu os caminhos para a expansão dos bbs foram os Chemical
Brothers. Quando surgiram, os manos químicos foram rotulados techno, já que
faziam eletrônica e eram DJs (e tudo estava ainda começando). Com o tempo,
viu-se que a onda deles era um pouco diferente: um mix de música negra
americana com guitarras. Após serem chamados de chemical beats, o gênero
ganhou o rótulo de big beats (termo já usado na América nos anos 60) e
hoje atende também por breakbeats. Os batidões fundem o
indie-guiar-rock-dance de Manchester (Stone Roses, Charlatans) com o
hip-hop e funk dos anos 70. Tudo com os modernos instrumentos e recursos
musicais de hoje. Outros grupos bons de breaks são os Headrillaz,
Wiseguys, Deejay Punk Roc e quase toda a galera do cast das gravadoras
Skint (Lo-Fi Allstars) e Wall Of Sound (Propellerheads). Tanto que no disco
especial de 20 anos da Tommy Boy Records (gravadora que deu à luz o
hip-hop) estão remixes de Grooverider (jungle) a Dee Jay Punk Roc, numa
simbiose perfeita, onde cabe até o techno alemão de Westbam (fazendo o
link Kraftwrerk).
Ao vivo, tanto Fatboy quanto Chem Bros fazem dois tipos de apresentações:
uma como DJs, apenas animando festas com toca-discos (e enlouquecendo nas mixagens, como mostram em seus discos de DJs, respectivamente Brothers
Gonna Work It Out e At The Boutique); e outra como show, com uso de
elementos como guitarra e baixo, aliados a samplers e baterias acústicas,
quando apresentam suas próprias composições. Quando vocês estiverem lendo
esta provavelmente os Chemical Brothers já terão tocado no Brasil (estavam
previstos para começo de maio; Fatboy, dizem, virá para o Close-Up 99) e
vai dar pra ter uma idéia. É mais ou menos como uma jam de hip-hop, só que
com um molho branco inglês e um toque rocker que falta ao jungle e quase
inexiste no hip-hop puro. É bom pra dançar geral, seja você rocker, clubber
ou apenas humano.
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20
CHEMICAL BROTHERS: SUPERSTARS DJS?
"Rock is deader than dead/shock is all in your head/your sex and your dope is all that we're fed/ so fuck all your protests and put them on bed"
Quem diz/canta isso é o Marilyn Manson em "Rock is Dead" (do excelente e incompreendido álbum Mechanical Animals). Com "o rock está morto" ele não quer dizer textualmente isso, mas dar um tapa na cara dos acomodados/posers de hoje em dia. Já parou e olhou bem em volta no que a instituição rock está se tornando? E pior: apoiada pelos próprios rockers!!!
Tirando os discos do MM, do Blur e do Placebo e mais uns poucos, eu, pessoalmente, não estou vendo o rock onde ele deveria estar: contestanto, mudando, incomodando, fascinando. O que vejo são gente que eu adorava (como Metallica) virando dinossauro, outros usando visuais ditos agressivos pra fazer música para moças (Sugar Ray) e punks palhaços.
Aí, de onde menos se espera, vem o rock em essência: do novo disco dos Chemical Brothers!!! Lá está o rock psicodélico inglês dos anos 60, o brit-pop dos anos 80/90 e o que virá. Surrender é provavelmente o melhor disco dos manos químicos, que não querem soar "rock" como o Prodigy (não é só fazendo barulho e tocando guitarra em cena, mas mudando alguma coisa). Eles sabem que "rock" é mais do que um cara de camisa preta e lata de cerveja na mão.
Pra começar, Surrender remete a um álbum clássico dos Beatles, Revolver. Tanto o nome do disco (renda-se) quanto vários elementos presentes nele vieram direto desse clássico, como da faixa que o fecha, "Tomorrow Never Knows" (de onde saiu o nome), supra-sumo do psicodelismo (com o ácido dando lugar ao ecstasy), música, aliás, já homenageada pelos ChemBros através do hit "Setting Sun", aquela uma que tinha os vocais de Noel Gallagher, do Oasis.
Aliás, Noel está de volta no novo disco, emprestando sua voz à ultra-psicodélica "Let Forever Be" (que até parece Violeta de Outono!). As participações especiais não param por aí. O velho bróder de Manchester, Bernard Sumner (do Electronic) canta em "Out of Control" (que é puro New Order, a banda original de Bernie) com apoio de Bobby Gillespie (Primal Scream), a celestial Hope Sandoval (Mazzy Star) enfeitiça em "Asleep from Day " e Jonathan Donahue (Mercury Rev) aluga sua guitarra cósmica para "Dream On" e nos faz sonhar mesmo.
O disco é mais ou menos dividido em três sets: o primeiro, non-stop, uma trinca que abre com a kraftwerkiana "Music: Response", que emenda na sorted "Under the Influence" e fecha com "Out of Control". Foi mais ou menos nessa ordem que abriram os shows brasileiros no final de maio. Só que, ao vivo, as músicas ganham formas diferentes, os tempos mudam e os vocais são retalhados. Aliás, o show deles parece uma versão mais humana do Kraftwerk, só que com um coeficiente pop/rock e um certo clima de festa/rave, que até então não havíamos visto igual por aqui.
Segue o CD: depois da faixa "Orange Wedge" (a mais fraca do disco, um instrumental que não leva a lugar nenhum, meio interlúdio) começa uma psychedelic-trip com a música do Noel, que abre caminho para a melhor faixa do CD, "The Sunshine Underground", com oito minutos e meio desorientadores, que vão da flautinha aos blip-blops. A ela se emenda a viajante de Hope Sandoval, que abre alas para a profunda "Got Glint", a música que estende o tapete para o hit single do disco, "Hey Boy, Hey Girl", cuja letra se resume ao nome, mais as frases "Superstar DJ, here we go!". É um suingue-balanço-funky de tirar do sério. E gruda no cérebro!
A suíte final é experimental/instrumental, com a faixa-título mais "Dream On", com a guitarra espacial de Donahue lembrando Spaceman/Spiritualized. No final, já não importa se é um disco de techno/electronica ou de pop/rock. O que conta é a música. Aliás, se o festival original de Woodstock, em 69, foi a origem de todas as raves (gente em comunhão reunida em torno de música, sexo e drogas), Surrender é um flash-back que bateu trinta anos depois (e que, daqui há trinta anos, ainda será devidamente reverenciado pelos jovens de mente e espírito).
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Moby, a baleia branca da eletrônica
Moby, aquele rapaz atormentado que ficou careca de tanto se preocupar com o nosso planeta, enfim se encontrou. Seu novo disco, Play (que está saindo aqui pela Roadrunner, em cima do laço) é, provavelmente, o seu melhor e mais conciso trabalho até agora. Nada mal para quem tem nas costas um disco do peso de Everything is Wrong (94).
Melville/Moby é um pequeno gênio da eletrônica 90. Punk de carteirinha (estilo ao qual voltou com o disco anterior, o irregular Animal Rights), no final dos anos 80, ele pegou um case com toca-discos e saiu excursionando com tudo nas costas pela Europa e foi conquistando fama como DJ de techno. Em 91 veio a consagração com a música "Go", esperta colagem trance feita a partir de um tema de suspense de Twin Peaks, com uma voz dizendo "yeah" e muito balanço. Foi ao topo das paradas e começou a virar pop star. Quando sentiu que isso ia acontecer, abandonou o barco e, assustado, realizou Everything is Wrong, que ao mesmo tempo marca o fim da primeira era techno (que, como todo estilo, só ficou famoso mundialmente após acabar, foi assim com o punk, também), lamenta a atual situação do nosso planeta.
Com Play, Moby mais uma vez abriu janelas e fugiu das classificações. É tanto um disco de gospel e de blues/bluegrass, sem o ser, quanto um moderno disco de eletrônica, fora do hype. E tudo isso junto com um forte acento religioso, tudo a ver com o blues/gospel. Não é novidade para ninguém que Moby (Richard Melville, bisneto de Herman, autor do clássico "Moby Dick", daí o apelido da baleia branca) é um cristão vegetariano convicto que, através de sua música, tenta entender o sentido da vida.
O encarte do novo trabalho (bem como o dos trabalhos anteriores), por exemplo, traz vários pensamentos sobre comer carne, violência, fundamentalismo, direitos humanos, com o artista sempre frisando que aquele é o seu ponto de vista e que ninguém é obrigado a concordar com ele. Bacana. Quem quiser que concorde. Ou não.
Em suas 18 faixas, Play vai causando estranhamento a princípio, para, aos poucos, ir nos envolvendo. Uma missa? Não, mas, como nos cânticos de gospel e mesmo nos lamentos blues, a música envolve o espirito e enleva o ouvinte. Experimente a curiosa "Run On", para ter uma idéia. Parece o encontro do delta do Mississipi com as águas turvas da baía de Hudson, em Nova York.
O toque eletrônico está presente de maneira bem discreta, já que Moby tocou todos os
instrumentos do disco, escreveu as letras, cantou e produziu. E ainda rola um clima electro/hip-hop com "Body Rock", que parece uma faixa perdida dos Beastie Boys, quando estes não eram tão zen. O principal é que, com Play, a curiosidade do ouvinte vai sendo aguçada faixa a faixa. Discos assim são raros hoje.
No final, Play resulta num trabalho algo ecumênico, com budismo, hinduísmo, cristianismo, enrolados em bases rock-blues-gospel-soul-tech-rock-pop sem pátrias e fronteiras. Isso é música. Quem está preocupado com rótulos que vá remarcar preços em supermercados. Moby, adequadamente, é uma figura rara como uma baleia branca...
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APHEX TWIN: O DEMONIO ELETRÔNICO
Richard D. James, codinome Aphex
Twin (entre outros, incluindo
AFX, Polygon Window etc) é um
camarada muito estranho. Controla sua
imagem. E se aproveita bastan-
te dela. Sim, porque Aphex Twin
(e as assustadoras caras nas ca-
pas dos discos recentes) é mais
um personagem por trás da per-
sonalidade esquizofrênica de
um cara muito talentoso.
Como excêntrico assumido, Ja-
mes se dá ao luxo de morar nu-
ma fazenda no interior da Ingla-
terra (base também de seu selo,
Rephlex, que lança Square-
pusher), onde passa horas
criando em seu estúdio caseiro
e, nas horas de folga, vai dar
uma volta pelo campo à bordo
de um tanque de guerra. Isso
mesmo, um tanque de guerra! A
polícia local tentou impedí-lo de
conduzir o veículo, mas nao há
nenhuma lei na Inglaterra que
diga, textualmente, que é proi-
bido dirigir um tanque.
Mas isso é detalhe. O que im-
porta é o que o cara tem a mos-
trar. James é um verdadeiro gê-
nio da eletrônica, já tendo cria-
do indescritíveis discos de am-
bient music (como pode ser
conferido nos dois volumes de
“Selected ambient works”, 94-
95), outros de pura música ex-
perimental (como compilado
em “Classics”, 90-92) e, atual-
mente, num híbrido maluco de
pop (!?) com drum, bass, blips e
blops, como seu mais recente
hit, “Widowlicker”, uma música
tão diferente que, quase chega a
ser dançante, quase radiofôni-
ca, mas sempre demente.
As músicas de James resultam em trilhas sono-
ras extra-sensoriais. Dependen-
do do disco, suas composições
vão do complexo ao simples,
mas sempre com estruturas ci-
nematográficas e oníricas. Sua
alma gêmea visual é o diretor de
clipes Chris Cuningham, que
transformou a heavy metal “Co-
me to daddy” num filmete sinis-
tríssimo e “Widowlicker” num
delírio sexy. Resultado: ambos
os clipes são proibidos de pas-
sar na TV inglesa. Só em vídeo.
E, antes que o amigo leitor que
confunde dance farofa com te-
chno (ajudado pela mídia burra
que mete tudo o que é eletrôni-
co no mesmo saco do precon-
ceito) é bom saber que as mú-
sicas de Aphex Twin não se
prestam à dança, embora, no
passado, sons como “Analogue
bubblebath”, “Flaphead” e “Di-
geridoo” dessem pra isso. O me-
lhor lugar para ele é no escuro
do seu quarto, com fones de ou-
vido. E muita imaginação.
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B.U.M.
o underground sem pose
djziggyfromrio
Enquanto no circuito clubber do eixo Rio-São Paulo DJs se julgam mais importantes do que a música que tocam - e mais até do que o seu próprio público, erro fatal -, um cara modesto e humilde, mas pé no chão, e que gira os pratos há mais de 20 anos, segue fielmente os mandamentos da nação raver mundial: trabalhar pelo movimento, pela união, por um todo.
O nome dele, de guerreiro grego, é Péricles Sodré Magalhães, o líder do B.U.M. (Brazilian Underground Movement), uma turma que agita festas e eventos de música eletrônica contemporânea na Baixada Fluminense desde 1995. Péricles não só é um DJ de primeira grandeza (especializado em techno, à vera), como também é um ser humano extraordinário. Por isso, seus seguidores, tornam o B.U.M. quase um movimento messiânico.
O próprio Péricles, um bancário, residente em Nova Iguaçú, aos 37 anos, casado, se diz espiritualista e já passou por várias seitas religiosas, sem se deter em nenhuma. “Mas não é por isso que vamos fazer do B.U.M. uma seita ou um clube”, diz Péricles. Apesar de não ser um grupo organizado em termos de ter sede, usar carteirinha e pagar taxa, os adeptos do B.U.M. fazem parte de um grupo semi-fechado que segue uma hierarquia: Péricles é o líder, eleito por voto. Depois vêm os Fundadores, os Membros e os Monitores, cada grupo com funções específicas.
As exigencias básicas? “Gostar de música eletrônica, ser confiável, sem preconceitos de sexo, raça ou opção sexual, honesto, que queira trabalhar pelo grupo e que seja, principalmente, bem-informado”. Embora ninguém no grupo fume, beba ou tome drogas, eles não recriminam quem use. “Não temos nada contra quem fuma, beba ou tome outras coisas, contanto que isso não prejudique o grupo ou a festa”. Quando alguém do grupo pisa na bola, por alguma razão, é sumariamente expulso, em votação aberta. Os monitores formam o maior grupo. São os "Guerreiros", segundo Péricles. São eles que formam uma teia de informações por toda a cidade, indicando os bons locais para festas, do que está acontecendo, espalhando flyers etc. “Quando notamos que algum novo membro tem jeito para DJ, emprestamos um par de toca-discos (que circula livremente entre todos) e discos (vinil, somente vinil). Quando a pessoa é muito pobre, nos cotizamos para comprar os toca-discos”.
O grupo, que lançou o segundo CD coletânea, edita um fanzine que circula em seis estados brasileiros, o Cena Brasil, e tem um programa de rádio, Underground beat, aos sábados, numa rádio comunitária de Nilópolis; começou fazendo festas em galpões na Baixada - sem ingressos vendidos, mas trocados por alimentos que eram doados às comunidades carentes e orfanatos. Nas raras festas com ingresso pagos, o dinheiro arrecadado vai para a feitura de filipetas, produções de festas e manutenção do fanzine, já que tudo é muito mais difícil para eles. Imagine, se já é dificil para garotos da Zona Sul, imagine para quem é da Baixada? Olhando toda a movimentação do B.U.M. de fora, fica patente a sua estreita ligação com o modo punk de ser, do faça-você-mesmo. Se antes punks do mundo inteiro se comunicavam por carta, hoje, estes cyberpunks usam a Internet para fazer o intercâmbio, nacional e internacional, criando um movimento que se espalha cada vez mais pelas beiras, por fora....
Aliás, foi assim que o punk nacional come,ou há 20 anos na periferia paulista...
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24
Um ano termina, uma década finda. Assim, à distância, podemos analisar melhor a cena eletrônica, fora do oba-oba, da polêmica, do preconceito que ela sofreu. E concluir que, sim, esse novo som eletrônico foi o novo rock, ou uma versão do rock de final de milênio. Sim, porque a dance music alternativa em nada se modificou por causa disso, continua lá, quietinha, no underground, sem cara. O house ainda é house, o techno ainda é techno. Duas faces de uma mesma moeda. O que aconteceu foi que, grupos e nomes como Prodigy, Moby, Chemical Brothers, Underworld, Orbital etc, conquistaram as paradas e ficaram grandes. E os cérebros por trás desses projetos sao essencialmente rockers.
Essa galera toda veio do punk rock, ouviam esse tipo de som quando moleques, e tão logo puseram a mão num instrumento diferente (no caso, pick-ups ou baterias eletrônicas), passaram a fazer o seu som, soarem diferentes, sem esquecer dos beats roqueiros. Os acordes destes grupos não são melódicos ou francamente dançantes como no house. O som é mais agressivo, soa a riff de guitarra, só que feito de outro modo. Ou alguem aí acha que existe alguma conexão entre disco music e o barulho que fazem nomes como Aphex Twin e Atari Teenage Riot?
O melhor disco do ano para esta coluna, Surrender, dos Chemical Brothers, parece um elo perdido entre os Beatles pré-psicodélicos, de Revolver (67) e os anos 90. O Orbital é uma banda de rock progressivo com alma punk. Moby se redescobriu no blues e no gospell e fez seu melhor disco, Play. O Prodgy sempre foi uma anarquia ambulante. E o Underworld daqui a pouco vai estar tocando nas FMs. Eles chegaram, enfim, onde queriam, ainda que tenham usado de outros meios para isso. Bem melhor do que repisar os Stones ou pretenderem ser um novo Oasis. O rock tradicional, francamente, anda muito chato e repetitivo (gosto de Placebo, mas já existiu o glam; dos pesados, o Korn tem futuro, e Mr. Manson diverte). Pelo menos alguém, em algum lugar, se mexeu. Pedra que não rola... (DJ Ziggy)
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25
O francês Laurent Garnier é um dos mais completos artistas da nova cena eletrônica. Ele não apenas é um excelente DJ (como pôde ser comprovado nas duas vezes em que aqui esteve, em 1994 e 1999), como também é um produtor de material próprio de mão cheia. Com três discos lançados, Astral Projections (94, o único que saiu aqui), 30 (97) e Unreasonable Behaviour (99), ele chega ao topo com este último e genial trabalho.
Com este terceiro álbum de estúdio, finalmente Garnier chegou lá. Passou da fronteira que separa o DJ do produtor/artista. Unreasonable Behaviour (F Communications, importado) é o melhor disco vindo de alguém da cena eletrônica - e que não promove crossovers com o rock/pop - nos últimos dois anos. Tanto que, fica difícil dizer se é um dos melhores discos do gênero dos anos 90 ou candidato à vaga para o ano 2000.
Desde Consumed, de Plastikman (98), não se ouvia um disco genuinamente techno (de tecnológico mesmo, da música criada estritamente por máquinas) que não se deixasse levar pelas batidas fáceis e apelo meramente dançante. Ou então que não passasse de simples exercício experimental com o estúdio. O trabalho de Garnier é totalmente baseado nas máquinas (que, a essa altura do campeonato, quem nao entendeu, perdeu), contudo tem personalidade, clima, vai além da provável trilha sonora de algum filme ou anúncio "esperto".
Ouvi-lo desperta algo parecido ao que deviam sentir nossos pais e irmãos mais velhos, quando, nos anos 70, botavam na vitrola um novo trabalho de Pink Floyd, Kraftwerk ou mesmo do Yes. Tirando o fato de não ter letras (salvo o manifesto que fecha o disco, "Last Words From The 20 Century", declamadas por sua esposa, Delia), Unreasonable Behaviour leva o ouvinte a um passeio indescritível por texturas e timbres impossíveis de se criar com qualquer programinha de computador. É a soma dos fatores, a mão do artista, que dá o diferencial. O disco tem momentos épicos, como em "The Sound Of The Big Babou", uma composição com toques de filme sci-fi, no qual um theremin sintetizado passeia por entre batidas 4/4, que bem poderia servir de tema de anúncio para a chegada de discos voadores. Tanto nesta, como em "Dangerous Drive", que possui a mesma construção rítmica, somos invadidos pelas freqüências do som, sentimos tudo no ar.
Entre climas francamente jazzísticos (improvisos e desvios) e outros que prestam tributo ao techno Detroit, ao electro-funk de Nova York e ao Chicago house, Garnier paga o seu tributo aos pioneiros da eletrônica e entra para um ti-me que separa os meros aprendizes dos mestres. Portanto, se você gosta de música diferente, independentemente de rótulos, tente ouvir isso aqui. É certeiro.
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Air
Safári etéreo
Etérea como o seu nome, a dupla francesa Air apareceu na cena musical internacional há dois anos causando a maior estranheza. Sim, porque em meio a toda a nova música eletrônica pipocando pela Europa e outras partes do mundo, com o techno (e todas as suas correntes e derivados) saindo do underground, o surgimento de novos equipamentos musicais digitais e cheios de recursos inimagináveis até então (e que possibilitam gravar discos inteiros sem sair do quarto, o ideal do faça-você-mesmo no máximo), os figuras Nicolas Godin e Jean-Benôit Dunckel vieram com uma proposta totalmente retrô.
O disco Moon Safari chegou às lojas em 1998 e confundiu geral. O que era aquilo? Uma piada? Música de elevador? Alguma trilha sonora dos anos 70 esquecida numa gaveta? Pode-se dizer que era um pouco de tudo isso. Os francesinhos, de uma só tacada, desafiavam a tecnologia reinante de forma meio punk, prestavam tributo a um tipo de música instrumental francesa feita nos anos 60 e 70 por pioneiros como Jean Jacques Perrey (que toca Moog no disco) e Pierre Henry, e uma forma original de fazer lounge music ou uma trilha para chill out. De quebra, ainda faziam referência a atriz Jaclin Smith, que fez a personagem Kelly na série de TV As Panteras, na música "Kelly Watch the Stars".
Da noite pro dia o Air virou um grupo cult, queridinho da galera alternativa e não
se enquadrava em categoria alguma, podendo ter seu disco encontrado tanto na estante de eletrônicos quanto de trilhas sonoras ou muzak nas lojas do planeta. Assim como o Kraftwerk, que, quando surgiu, ficava nas prateleiras de música clássica, não na de rock, como seria o mais adequado. E, por isso, sempre se corre um risco ao tocar alguma música do Air, seja na festa que for. As reações podem variar do mais completo asco ao deleite total.
Bom, aí todo mundo quis saber mais sobre a dupla, que ganhou capas de tudo quanto é revista importante no mundo (e não apenas as de música) e (re)apareceu em tiragem limitada o EP Premiers Symptomes, lançado em 97 apenas na França, quando ninguém dava bola pra eles. O EP reúne alguns compactos lançados antes pelo obscuro selo Source. Com a procura, não apenas o disco ganhou distribuição mundial pela Virgin (que lançou Moon Safari no mundo), como foi re-lançado no final do ano passado, com mais duas faixas. Infelizmente, o disco (que, em muitos momentos é superior ao que a dupla fez depois) não teve edição brasileira até agora.
Aí, após um longo sumiço, o Air reapareceu este ano com The Virgin Suicides, que não é exatamente um novo disco do Air, mas uma trilha sonora, feita por encomenda, para o filme de estréia de Sofia Coppola, como eles mesmos fazem questão de frisar. O disco é soturno, estranho e não tem os teclados Moog, os efeitos Theremin e aquele clima de sonho do Air. Inclusive tem uma faixa cantada por um certo Gordon Tracks, que faz lembrar Marc Bolan do T-Rex, um ícone do glam rock dos anos 70. Vale como aperitivo, mas falta alguma coisa.
Enquanto isso, a gente espera o novo disco de fato do Air (nome que, de certa forma, faz referência ao disco Oxygene, do presepeiro Jean-Michael Jarre), bem como a vinda da dupla ao Brasil, nem que seja num Free Jazz da vida. O único gostinho de Air ao vivo (coisa rara mesmo na Europa) que tivemos por aqui foi uma aparição da dupla no programa do inglês Jools Holland na TV a cabo (canal People + Arts), no qual eles interpretaram "Kelly Watch the Stars" de uma maneira hardcore e totalmente inesperada, com andamento acelerado, baixo, guitarra e bateria. Os caras são mesmo doidos.
Discografia:
The Virgin Suicides (álbum) fev/ 2000 - Virgin
Playground Love (single) – fev/2000
Premiers Symptomes (mini-LP) - out/99
All I Need (single) – nov/98
Kelly, Watch The Stars! (single) – maio/98
Moon Safari (album) – jan/98
Sexy Boy (single) – fev/98
Premiers Symptomes (mini - LP) – julho/97
Le Soleil Est Pres De Moi (EP) – nov/97
Modular Mix (EP) – ago/96
Casanova '70 (EP) – jul/96
Modulor Mix (EP) – nov/95
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27
moby & PVD: dois lados da nova musica
É triste saber que muita gente, rapaziada do rock ou alternativos em geral, por causa de preconceitos bobos, não ouvem determinados tipos de música ou artistas. Se saíssem do gueto ou deixassem esse pensamento separatista (facista?) de lado, nem que fosse por algumas horas, descobririam que nomes vindos da cena eletrônica lançaram alguns dos melhores discos de rock, pop ou techno-qualquer-coisa (como queiram) nos últimos meses.
Moby surpreendeu geral com o seu Play (que até saiu aqui pela RoadRunner), um disco que mistura tão bem os elementos (funk, rock, gospel, techno, blues) que consegue soar totalmente diferente do que estamos habituados a ouvir. Aliás, por causa disso, o disco cresce a cada nova audição. Tanto que, quase um ano depois de lançado, só agora Play chegou no topo da parada inglesa e está emplacando um single atrás do outro naquelas bandas.
Moby (nascido Richard Hall Melville em Nova York) consegue isso porque simplesmente faz um trabalho não pensado para o gosto das paradas atuais. Ele não é um rocker poser, nem um DJ presepeiro. É simplesmente um cara atrás de boa (e nova) música. Por isso mesmo que Play tivesse passado em branco pelo grande público (o que aconteceu aqui e nos USA, só os europeus foram mais atentos), em nada diminuiria o mérito do trabalho, o seu melhor disco.
Já o alemão Paul van Dyk foi um dos responsáveis pela popularização da trance music na Europa, conseguindo unir o lado alternativo da eletrônica com o pop, ao criar melodias menos sombrias. Há uma fina linha entre o comercial e ao autoral, e PVD consegue andar nela sem levar tombo.
Tanto que a música que puxa o seu novo disco, "Out there and back", conta com os vocais de Sarah Cracknell, cantora da banda indie-pop britânica Saint Etienne, criando um crossover até agora inédito, já que a mistura promovida por nomes como Prodigy e Chemical Brothers apontam mais para o rock.
O jovem PVD apareceu há cinco anos durante uma das edições da Love Parade em Berlim. Oriundo do lado oriental da Alemanha, ele vinha desenvolvendo um trabalho alternativo desde antes de o muro vir abaixo e, com a abertura e aceitação da nova música eletrônica na Europa, estourou como um dos maiores talentos do trance, muito antes do gênero virar moda.
Tanto que, sua música mais famosa, "For an Angel", é de 1993, e foi relançada em 98, fazendo um sucesso avassalador. Outros trabalhos de qualidade do produtor/remixer/dj são "Avenue" (espécie de "Autobahn" dos anos 90) e "Tell me Why (the Riddle)", a tal canção com o St. Etienne.
Nada contra o pop. Melhor isso do que o metal fake/poser de bandas como Limp Bizkit e a palhaçada dita punk do Blink 182. Vocês acreditam nisso?
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O novo som eletrônico faz o crossover para o pop
No começo, era para ser uma música sem ídolos, sem rostos. Aconteceu que, nos últimos dez anos, a cultura DJ cresceu e se multiplicou (muito) pelo mundo afora. A ponto de, em países como Inglaterra e Alemanha, por exemplo, determinados DJs serem mais populares e famosos do que astros do rock ou da TV.
O resultado é que, após uma fase com capas de discos com imagens abstratas, fractais e coisa e tal, cada vez mais os DJs estão posando na frente dos CDs, iguaizinhos aos popstars. Pode-se alegar vaidade. Ou então, estratégia de marketing. Afinal, o consumidor comum, em tese, não compraria um disco (e que não toca nas rádios populares) sem saber a cara de um novo artista.
Prova dessa mudança é que, hoje você passa em frente a uma megaloja nos Estados Unidos e vê nas imensas vitrines, cartazes com anúncios de novos discos de artistas/DJs, dividindo o espaço de igual pra igual com grandes nomes do pop/rock. Ilustres desconhecidos pra quem só ouve parada de sucesso, como William Orbit, David Holmes, BT, Moby (finalmente reconhecido), Westbam, Sven Väth e Paul van Dyk disputam espaço com as Mariah Carey e Kid Rock da vida.
Vale lembrar que, a maioria destes nomes são europeus (onde esse tipo de exposição já é comum há anos) e muitos nunca tiveram muita abertura nos EUA, país ainda fechado a essa nova música (fora em estados como Flórida, Nova York e Califórnia), por ser muito conservador e tratar os britons meio como nós olhamos para os portugas. Agradecimentos a Fatboy Slim, que foi o primeiro touro a domar os caubóis.
Ou seja, se os yankees estão começando (com anos de atraso) a dar bola pra essa galera e se a galera tá aceitando a corte, é porque, finalmente vem mudança
por aí. A questão é: será que estes nomes serão absorvidos pelo mainstream e terão de fazer música diluída para agradar aos americanos ou imporão seu trabalho sem abrir concessões?
Para alguns, como William Orbit, por exemplo, apesar de ele mostrar a cara, o fez com um disco nada comercial, o Pieces In A Modern Style (lançado no Brasil), que dá roupa nova (instrumentalmente) à música clássica. Esse não vai tocar nas rádios. Já Moby conseguiu criar um disco (Play) que é excelente e também palatável para quem tinha medo dele. Por outro lado, o americano BT (Brian Transeau), que fez carreira na Europa no tempo em que o trance estava por baixo, agora, depois de um disco aclamado pela critica (E.S.C.M., cuja capa era um monolito negro), reaparece posando de gostosão e atirando em todas as direções. Movement In Still Life (Netwerk), seu terceiro álbum, tem uma faixa para cada gosto e estilo: hip-hop, trance, pop, house, ambient etc, a maioria delas com vocais e formato rádio.
Mas o caso mais bem resolvido é o de Paul van Dyk. O alemão veio ao longo da década de 90 criando um estilo próprio de marca da Love Parade. Seu primeiro hit, "For an Angel", é de 93, mas só foi estourar fora do underground em 97/98 (devidamente remixado). Resultado: virou o padrão do som europeu no período 98/2000 e levou o trance para as massas.
Seu discípulo inglês, Chicane, já com disco lançado aqui pela Sony, vai mais além: experimenta um crossover pop/rock/trance, com faixas vocalizadas no novo disco, Behind the Sun, com direito a participações de Maire Brennand, do Clannad; e até mesmo do roqueiro baba Bryan Adams. A única certeza é que, aqui no Brasil, essa música é sofisticada demais pra chegar nas FMs e tem tanta chance de estourar quanto o melancólico som do Travis. Mas, quem sabe?
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LEFTFIELD
Quando o que importa é a música
Duas atrações do palco principal da última edição do Free Jazz serviram para mostrar, para quem foi aos dois shows e estava atento aos sons, que a música ainda é mais importante do que simples rótulos. Desde há muito tempo que o tal sistema tenta (e consegue) enquadrar as pessoas dentro de categorias, tais como rock, pop, isso e aquilo. Quem não pensa assim, pode curtir melhor o que a música tem para nos dar. Dessa forma, quem assistiu aos shows de Sonic Youth e Leftfield acabou vendo dois lados da mesma moeda. E saiu do lugar praticamente em transe.
Sim, porque tirando o fato de o Sonic Youth (americano) usar guitarras e o Leftfield (inglês) equipamentos eletrônicos, a intenção dos dois grupos/projetos é uma só: experimentar com os sons. À sua maneira, o SY transcende o mero rótulo "rock" e brinca com microfonias, distorções, barulho, tudo dentro de um esquema bem desenhado que os mais atentos podem "ver" no ar: a idéia e levar a gente para uma trip pra dentro do cérebro, quase um transe psicodélico. No meio disso tudo eles jogam uns doces pra platéia (músicas com começo, meio, fim e refrões) só para não soarem tão extravagantes ou artísticos demais. Gol de placa.
O Leftfield faz a mesmíssima coisa. Só que, como fazem parte da geraçãó digital, pos-guitarra, utilizam instrumentos/equipamentos diferentes. Mas a dupla Barnes & Daley também desenha um mapa onde o que importa e explorar as freqüências sonoras, brincar com a percepcção, o sensorial da platéia, ainda que o som do festival não estivesse adequado em estrutura e volume, e grande parte do público, alienado a isso tudo, estivesse ali pensando que ia ver um mero espetáculo dance, pra botar os bracinhos pra cima e rebolar tirando onda de moderno.
Mas o que se viu foi um sound system cyber. Leftfield vai na fonte de toda a música pop contemporânea, a África, e de lá faz uma ponte entre Jamaica e Inglaterra, (con)fundindo todos os elementos e criando novos. A exploração dos graves, as batidas afro, o dub, o jeito ragga de cantar (com um toaster em cena), tudo recoberto com uma camada techno (de tecnologia mesmo). E conseguiram amarrar repertórios de seus dois únicos discos, Leftism (95, eleito o melhor disco eletrônico dos anos 90) e Rhythm & Stealth (99, ambos lançados aqui pela Sony), de uma forma quase imperceptível e harmoniosa.
Contudo, como as pessoas preferem viver de acordo com partidos, times e clubes, nem todos percebem essa riqueza de informações. Já um velho punk amigo nosso, John Lydon, não se fez de rogado e botou voz em "Open Up", do primeiro disco do Leftfield, percebendo que, como sempre soube, punk está além da pose. Então você se achava moderno, alternativo e roqueiro? O sistema conseguiu te prender. Pena. Recomendo então ouvir Leftfield, Moby, Underworld, The Orb, Aphex Twin etc, para ver se ainda dá tempo de infectar a sua corrente sanguínea. A não ser que depois dos 30 você case, vá trabalhar num banco e diga para os seus amigos que está velho demais para o rock n roll. Então, você está morto, amigo.
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O sambaloco da trama eletrônica
A gravadora Trama, através de seu selo Sambaloco Records, vem dando uma atenção especial para a música eletrônica brasileira de uma forma que jamais tinha acontecido aqui. Além de os artistas e DJs serem tratados com respeito, os discos são bem gravados e embalados, não ficando nada a dever em termos técnicos e visuais aos produtos internacionais. Uma sorte que o rock alternativo nunca deu, visto que continua sendo mal tratado pelas grandes gravadoras multinacionais (a Trama é totalmente brasileira). E muito diferente daquelas coletâneas picaretas que são lançadas por aí como "techno" ou algo que o valha.
Até o final de 2000 a Trama/Sambaloco lançou os discos de coletâneas remixadas dos DJs Marky (drum and bass), Rica (psy-trance), Camilo Rocha (acid techno) e Anderson Noise (techno), e também os discos de material próprio dos projetos Drumagick e Ram Science (ambos na linha drum and bass), além do CD do DJ inglês Juliam Liberator, Set Fire. E, de quebra, um disco duplo remixado do Otto, Changez Tout, em rica embalagem de edição limitada, no qual vários DJs e produtores recriam músicas do álbum Samba pra Burro.
Otto nos contou como tudo aconteceu: “Foram dois caminhos que se cruzaram: o (Carlos Eduardo) Miranda me conhece bem e sabia que eu não tinha nada contra o som eletrônico. Por outro lado, eu ia dançar no (clube paulista) Lov.E no dia do Marky e um dia o Marky disse pra mim que queria remixar ‘Bob’. Contei pro Miranda e a idéia fechou. Só que ele disse que a gente ia fazer logo um disco de remixes”.
E não um disco qualquer, mas um álbum duplo com praticamente todo mundo que está em destaque na cena eletrônica alternativa brasileira. “Virou um disco duplo porque temos muitos amigos DJs e produtores que se interessaram pelo projeto e começaram a selecionar músicas. Foi um modo de os DJs me samplearem oficialmente, uma coisa inédita aqui, com o próprio artista cedendo, dando libedade ao DJ, o que é a graça do disco”, explica.
O processo de seleção também fluiu naturalmente e cada um escolheu que faixas queria manipular: “Alguns mandaram mais de uma música. Inclusive, tem gente lá que nunca tinha ouvido nenhuma música do Sambra pra Burro e fez o remix do zero. Mas eu dei liberdade total, acreditei neles. Também foram eles que escolheram o que iam remixar, mas é claro que as músicas muito repetidas foram limitadas em quatro, como ‘Bob’, por exemplo. Eu não me meti em nada, confiei cegamente neles, por isso tem de tudo no disco, que ficou bem variado, de música pra pista de dança a música normal de tocar no rádio”.
Otto acredita na liberdade da música eletrônica: “Eu mesmo não sou músico de estudar partitura, aprendi cantando Cartola e Nelson Cavaquinho, Jackson do Pandeiro e Martinho da Vila. Eu vejo o DJ assim, livre pra criar, não precisa ser músico pra isso, basta ter o feeling”.
E, como a ferramenta principal dos DJs é o disco (vinil, de preferência), em breve será lançada uma versão nesse formato de Changez Tout: “O Miranda (do selo Matraca, que lançou o disco original) disse que depois vai ter uma versão em vinil, claro, e tabém vamos fazer umas festas por aí, com DJs locais e alguns do disco, não só pra tocar o disco, mas pra pra fazer farra mesmo”.
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A porção eletrônica do Rock in Rio
A nova música eletrônica hoje é uma forte vertente do segmento dance/pop e não mais se restringe a clubes alternativos ou grupos experimentais. Por isso, todo grande festival de música pop/rock, principalmente na Europa, reserva um espaço só para a eletrônica. Sem contar os inúmeros (e concorridos) festivais dedicados exclusivamente a e-music, que acontecem durante o verão, também nos Estados Unidos e América do Sul.
E o Rock in Rio não podia deixar essa nova tendência de fora. Por isso, contará com a tenda Electro, que mostrará os diversos estilos contidos dentro desse gênero que evolui a cada segundo. Durante as sete noites do festival, o house, o techno, o electro, o drum and bass, o trance e também o hip-hop e o pop/dance estarão representados pelos melhores DJs do Brasil e do exterior. Todos poderão dançar conforme a música.
A noite de abertura será um misto trance, com o projeto alemão ATB do DJ alemão Andre Tanem Berger, conhecido aqui pela música “9 am (‘til I Come”). Apesar do som do ATB ser pop e comercial, ao vivo ele pesa mais. A parte nacional terá o trance psicodélico, ou psy-trance, do DJ paulista Rica Amaral, criador da pioneira rave XXXPerience. O Rio será representado pelo DJ Kandle, que, na paralela, agita numa banda de rock, a Nope, e também edita o e-zine “Tranzine” (ainda no ar, também com uma rádio).
O dia 13, um sábado, será inteiramente dedicado ao hip-hop, com a lenda viva Kool Herc, DJ/MC/produtor americano é um dos criadores/fundadores do movimento hip-hop. No final dos anos 70, junto com Afrika Bambaata, comandava sound systems nos guetos negros de Nova York, onde a mistura de DJs, grafiteiros e dançarinos de break deram origem ao hip-hop. Fazendo as honras, a galera da Zoeira, equipe de DJs, breakers e grafiteiros que agitam há dois anos, aos sábados, a festa Zoeira na Lapa, numa velha sinuca. Capitaneados por Elza Cohen (a DJ LZA), a trupe consolidou a cultura hip-hop nas ruas do Rio.
O primeiro domingo será dedicado ao techno (original), em noite encabeçada pelo alemão Westbam. Pioneiro da cena techno na Europa, o alemão Maximiliam Lenz começou a carreira de DJ em 1983 e junto com Klaus Janhkum, foi um dos criadores do festival Mayday (que deu origem ao grupo Members of Mayday), uma versão alternativa da Love Parade. Uma lenda. Os brasileiros Camilo Rocha e Ricardo NS abrem a noite. O paulista Camilo é jornalista. Nos anos 90, morou um tempo em Londres. Voltou ao Brasil e introduziu o acid techno nas raves locais. Já Ricardinho foi o primeiro DJ de techno brasileiro a tocar na Love Parade alemã (em 1998) e agita desde o começo dos anos 90 na cena local.
O festival dá uma pausa e volta na quinta, dia 18, com uma noite de trance progressivo. Os cariocas Alexey e Wig abrem a noite. O primeiro comanda o projeto Unknown Project. Já Wig é músico de formação (já tocou bateria com Lobão e na banda Vulgue Tostói, entre outros) e está criando músicas próprias. O terceiro brasileiro é este vosso criado, Ziggy, que desde 94 agita o conceito Electric Head na noite carioca. Ziggy tocou na primeira mega-rave brasileira, a Love Galaktika, em 1997, e começou tocando EBM no Crepúsculo de Cubatão. Tem músicas em duas coletâneas, Utter (98) e Underground Beat (99). Fechando a noite, Ferry Corsten, jovem (25 anos) DJ e produtor holandês que usa diversos pseudônimos para fazer música, sendo o mais famoso o System F, responsável por popularizar o trance (numa versão mais melódica e acessível) nos clubes europeus.
No dia seguinte é a vez do drum and bass, com o DJ Calbuque abrindo os trabalhos. Ele foi o primeiro DJ a dedicar uma noite inteiramente ao jungle/drum and bass no Rio, na festa Febre. Depois entra em cena o inglês Fabio, que começou carreira fazendo programas em rádios piratas e atualmente é parceiro do mestre Grooverider. Quem fecha a noite com pinta de estrela internacional é o paulista Marky, um verdadeiro fenômeno do drum and bass mundial. Ao cruzar técnicas e elementos do hip-hop (rápidos scratches e manejo do mixer), ele se tornou diferente dos outros. Por isso, hoje ele toca em festas londrinas como headliner.
O sábado 20 será um dia misto, aberto pelo carioca (e eclético) Nado Leal e seguido pela trupe do B.U.M. (Brazilian Underground Movement), um grupo nascido na Baixada Fluminense, que, apesar de todas as dificuldades, consegue fazer música eletrônica alternativa e divulgar esse tipo de som nos subúrbios do Rio. A mais nova empreitada do B.U.M. é o selo RamPer (junção dos nomes dos DJs Ramílson Maia, de SP; e Pércicles, do Rio), especializado em batidas retas 4/4. A noite será fechada pelo inglês Dave Angel (nascido Nicholas Gooden), filho de um músico de jazz que desde cedo cria suas próprias composições eletrônicas.
O último dia da tenda Eletro será dedicado à house music. Dudu Dub, um dos pioneiros da cena eletrônica underground carioca, abre os trabalhos. Depois vem Felipe Venâncio, DJ referencial das primeiras festas em galpões que aconteceram no Rio. Ele começou a tocar nos anos 80, no Crepúsculo de Cubatão. Mais um carioca, Memê, segue a noite. Atualmente mais conhecido por suas produções para artistas do pop/rock nacional (já produziu Kid Abelha, Fernanda Abreu e Lulu Santos), ele nao esqueceu como se maneja duas pick-ups. Encerra a tenda o americano George Morel, criador do selo Strictly Rhythm
Se há algum recanto onde o tal espírito de Woodstock esteja sobrevivendo hoje (como sempre se procura frisar nestes festivais), é na nova cena eletrônica, que revive o ideal da confraternização entre as pessoas através da música...
Em tempo: a programação conta agora com mais dois DJS gringos, Jose Padilla (Espanha) e Jim Masters (UK).
De meio-dia às seis da tarde a tenda será um circo, com artistas de todo o tipo se apresentando, malabaristas, come-fogo, equilibristas etc. Isso rola todo dia, depois eles ficam lá, quando vira festa...
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Eletro in Rio
A tenda pela qual muita gente não dava nada acabou sendo uma das atrações mais quentes do Rock in Rio 3. Trata-se da tenda Eletro, que, em comparação com as atrações de museu do festival, trazia realmente o mais novo de cada estilo eletrônico que por lá desfilou (trance, techno, drum and bass, hip hop, electro, house etc). Tendas de música eletrônica são comuns em qualquer grande festival na Europa, sejam de rock pesado ou alternativo (até em Castle Donnington tem!). Mas por aqui era uma total novidade, fora em festas especificas como as raves. E o seu e-amigo Ziggy se sente orgulhoso por ter palpitado com o pessoal do evento sobre as atrações a convidar (embora, por causa do baixo budget da tenda, a maioria dos tops não vieram por causa de cachê). Mas, no final, rolou legal.
Entre atrações alternativas e outras mais pop, a tenda recebeu o alemão ATB (trance comercial), o também alemão Westbam (um dos criadores da Love Parade), o holandês Ferry Corsten (o homem por trás dos projetos trance System F e Veracocha, entre outros), o espanhol Jose Padilla (sinônimo de lounge), os ingleses Fabio (fera do jungle), Jim Masters & Lulu (o casal 20 do techno, ela é uma gracinha), Dave Angel (que detonou tech-funk, incluindo um sampler de um samba enredo da Vila Isabel dos anos 70, "Martin Cerere"), o americano Morell (dono do selo Strictly Rhythm) e a prata nacional disse presente na figura de nomes mais e menos conhecidos como Marky (apontado na edição da janeiro da revista Muzik como um dos nomes quentes para o ano 2001), Felipe Venancio, Calbuque, Meme, Alexey, Wig, Kandle, a galera do B.U.M., Rica Amaral, Camilo Rocha e seu e-friend Ziggy, além de vários convidados especiais.
Praticamente todos os dias a tenda ficou superlotada desde cedo (abria às 18h e só acabava depois das 3am), o som estava muito bom, as luzes nota dez (incluindo lasers) e as dançarinas chamaram a atenção da galera do babador. Os únicos dias mais ou menos foram a segunda sexta, dia heavy metal (noite de drum and bass, som extremamente pesado, pena que os headbangers daqui só enxergam numa direção, vide a má recepção ao som alucinante do Queens of the Stone Age) e o primeiro sábado hip-hop (rolou um certo clima de briga e o lendário Kool Herc não apareceu, porque ficou retido no aeroporto de Nova York - ele é jamaicano). No mais, o pau comeu direto com direito a muita gritaria.
Entre as performances a destacar, além das sempre alucinantes gigs de Marky, houve a pauleira de Dave Angel, a classe de Lulu, o peso de Westbam e a mistura de batucada com house feita por Venâncio, sem contar o clima de delírio na noite trance com o E-Head Team (Alexey, Kandle, Wig e Ziggy) quando neguinho não parava de gritar e bater os pés. Antes e depois das noites, os DJs gringos aproveitaram a praia e o sol do Rio (não choveu em nenhum dia do festival!) e comeram muita carne nas churrascarias da cidade, já que na Europa o clima de vaca louca é total. A trilha está aberta, ainda que com atraso. Até a próxima!
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electric head
Nem certo, nem errado. A evolução natural.
No princípio foram os negros. E eles criaram o jazz, o blues e o rock’n'roll (e tudo o que veio depois, inclusive o techno, a house music e o drum and bass). Depois, fez-se a luz com o surgimento de música para gente não enquadrada ou adolescente. E para celebrar, foram criados os festivais. Os ingleses saíram na frente, já que por lá o verão é curto e qualquer solzinho é motivo para festa. Ilha de Wight onde Hendrix se revelou. E os americanos, mega como sempre, contra-atacaram, com Woodstock, que apesar da aura que tem, já era um empreendimento comercial do grupo Warner. Faturou milhões como filme e trilha sonora, sob o lema de três dias de paz, amor e música. Mas valeu pelo que mostrou/revelou...
Marcou uma época. Influenciou tantos outros. Chegou no Brasil 15 anos depois como Rock in Rio. E festivais continuam acontecendo, contudo, nem todos com o espírito original. A maioria é apenas um mostruário de produtos das gravadoras embalados como algo "mágico" (vide RockinRio 2001 e o malfadado Woodstock 2000). Mas, nesse meio tempo, apareceu a e-generation, que trouxe de volta os festivais de confraternização, para celebrar o espírito livre, a música pura e simples, a dança. Isso foi no final dos anos 80 com as raves, festas clandestinas em galpões, e lá se vai mais de uma década. Claro que hoje o espírito original já foi novamente deturpado. O ser humano é predador. Destrói o que não compreende ou assimila.
Mais uma vez foram os ingleses quem reciclaram seu próprio material. A diferença é que agora a música era eletrônica, mantrica, repetitiva, como as músicas ancestrais, feitas para o corpo flutuar e a mente se expandir. Daí o uso de drogas extra-sensoriais, como já faziam os antigos povos. Hoje, rave virou lugar-comum e sinônimo de festas pagas e super divulgadas (traindo o senso original do boca-a-boca), mas ainda há quem acredite no seu sentido original. Por isso acontecem as raves em florestas, montanhas, praias desertas, seja em Trancoso (Bahia), em Goa (Índia) ou na África (Solipse, que acontece em maio, na Tanzânia).
E assim, o batuque tribal dos negros (agora digital) continua ecoando. E aquele tal espírito livre que um dia já foi chamado de rock’n'roll continua existindo com nova cara, mutante, em outro corpo, porque ele não pode envelhecer nunca. Ah, se as pessoas que vestem camisas pretas e vivem em tribos fechadas, defendendo um certo rock, negando a transformação, conservadores como eram os caretas quando Elvis rebolou e mudou tudo, percebessem isso. Estes são o anti-rock, a antítese do punk, pois se entendessem realmente o que defendem, não estariam fazendo a mesma coisa há 50 anos. Estão velhos demais para o rock’n'roll...
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Duas mentes, uma só alternativa: underground
Recentemente o Brasil recebeu a visita de dois DJs bastante importantes na divulgação do som eletrônico underground. Assim como acontece no rock, nem tudo o que se diz techno é verdadeiro. Há muita enganação. Não é o caso do que fazem os DJs John Digweed (inglês) e Rolando (americano), que tocaram na edição 2001 do Skol Beats, no Rio e em SP.
Digweed desenvolveu um estilo todo próprio que ganhou o nome de progressive (nada a ver com prog rock). São músicas longas, instrumentais, que vão se desenvolvendo progressivamente, levemente assemelhadas ao trance. Já o som de Rolando é puro techno Detroit (que está para a e-music assim como os Stooges estiveram para o punk), pesado e hipnótico.
Tanto Dig quanto Rolando lançam discos por suas próprias gravadoras, livres das multinacionais. O inglês pelo selo Bedrock e o americano pelo Underground Resistance. Aliás, o UR esta numa briga judicial das grandes com a Sony Music pois esta pirateou e lançou uma versão farofa para o hit "The Jaguar", de Rolando. O próprio nos contou em que pé isso está. “A batalha ainda está longe de acabar. Mas já estamos vendo uma luz a nosso favor”, disse Rolando. “Na parte de direitos e créditos ela está indo bem, mas ainda está sem data para acabar. É uma briga entre uma grande gravadora, cheia de advogados e muita grana contra um pequeno selo independente. Mas as coisas estão correndo bem para o nosso lado”.
Rolando disse que realmente a Sony chegou a lançar um single "pirata" da música na Alemanha através de uma licença para a BMG. “A Sony repassou a múica para a BMG da Alemanha e eles lançaram uma versão trance farofa de ‘Jaguar’ em fevereiro. Felizmente, conseguimos embargá-la e saíram apenas umas poucas cópias. O mais ridículo é que a capa do single tinha um tablete de ecstasy em cima do logo do UR, o que não tem nada a ver conosco e com o trabalho que fazemos!”
Pura apelação de gravadora grande que se acha "moderna". Felizmente, isso nunca acontecerá num selo controlado pelo próprio artista, como o Bedrock de John Digweed, que veio ao Brasil pela segunda vez. “Nosso esquema é pequeno e atinge diretamente o público que queremos atingir”, afirmou John Digweed à RP. “Embora tenhamos discos na parada, não vamos nos vender para as majors”.
Dig não se incomoda de seu som ter ganho o rótulo de "progressivo". “As pessoas precisam de rótulos para se encaixarem em algum modismo e a mídia precisa de rótulos para vender estilos, mas o que eu faço é música para dançar de uma forma mais elaborada e menos comercial.
Entre os recentes trabalhos de Dig para outros artistas, estão remixes para "Cowgirl", do Underworld, e para "Once More", do Orb, entre outros. Já Rolando ganhou de presente um EP com remixes de “Jaguar” feitos por feras do techno clássico como Jeff Mills, Derrick May e seus bros Mad Mike e DJ One. Tanto os discos de Rolando como de Digweed não estão disponíveis no Brasil.
Respect!
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Orbital, a dupla que não anda em círculos...
Ao lado do Shamen, Orb, Alter-8 e mais uns poucos, Orbital é um dos grupos pioneiros da nova eletrônica no Reino Unido. A banda, formada pelos irmãos Phil e Paul Hartnoll no final dos anos 80 e em pleno auge da explosão rave, atravessou a década de 90 tranqüilo, sem estourar nas paradas como um Prodigy, por exemplo (fora o sucesso de "Chime", logo no comecinho; e o tema do filme O Santo), mas gravando bons discos e criando uma base de fãs que os veneram.
A dupla lançou um novo disco, The Altogether, que é o mais rock da carreira. Ele abre logo com um technobilly que usa samples de "Surfin’ Bird" (aquela imortalizada pelos Cramps) e segue com faixas rápidas, quebradas, com elementos de electro, hip hop, punk rock e o toque Orbital. Nós conseguimos um papo com Phil, que nos falou sobre estes novos elementos no som outrora viajante da banda.
Sim, este disco é assim mesmo, mais econômico. Mas tem um motivo. Desta vez tínhamos muito mais composições e colaborações do que espaço no disco. Então, pra fazer caber, tivemos que ser mais econômicos e reduzir a duração das músicas para cinco, seis minutos no máximo. Foi uma opção. Mas a versão em DVD é mais completa, com músicas mais longas...
Há também um clima mais rock, back to basics, a música que abre, “Tension”, por exemplo, parece psychobilly –
(Rindo) Sim, é um psychotechno. Não é bem um retorno, mas é isso. Nós sempre tivemos uma porta aberta para o rock e sempre fomos considerados e respeitados como uma banda, não um projeto eletrônico. Já fizemos remix até para o Metallica. Ao mesmo tempo, essa mistura dá um diferencial, não soamos igual a outros grupos eletrônicos.
Vocês já usaram vocais antes, mas desta vez há uma faixa bem formatada para o padrão pop/rock cantada por um certo David Gray. Quem é?
Ele é meu cunhado. Anda muito bem falado em Londres. Já tem uma carreira que dura sete anos e agora está sendo reconhecido. Nós tínhamos essa música, instrumental, e um dia Dave foi ao estúdio e resolveu cantar. Funcionou.
Finalmente vocês lançaram “Dr Who”, que rola em shows há um tempão. Quando virá a versão de “Halcyon” com samples do Bon Jovi?
Tem certas músicas que preferimos só tocar ao vivo, que dão um diferencial ao show, funcionam muito bem como vinhetas, caso do tema de Dr Who. Lançamos agora porque ela tem muitas versões piratas e estava no clima do disco. Quanto a “Halcyon” com Bon Jovi, lançamos há alguns anos numa edição especial só para os Estados Unidos.
Uma faixa em particular no disco, “Waving Not Drowning”, lembra muito um ritmo nordestino do brasil, o baião. É alguma influência da estada de vocês por aqui, em 1999?
Na verdade, não. E fico muito surpreso em saber isso. Só se foi uma coisa subconsciente, porque ficamos apenas no Rio e em São Paulo.... Na verdade, a inspiração da faixa vem de um filme que vi, um curta de arte, que tinha essa estranha música no fundo. O curioso é que o filme era todo feito por ingleses, então não vejo onde está a conexão. Mas agora fiquei curioso e quero conhecer este estilo musical brasileiro.
Após mais de uma década, como vêem hoje a cena rave, os festivais? Ainda existe o vibe?
É fantástico tocar num festival ou numa rave. Eu adoro. O público é sensacional, participativo. Não dá para comparar com o passado, são dois momentos diferentes, mas o vibe ainda existe, sim...
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E você achava que e-music era tudo igual...
Música eletrônica não é nenhuma novidade. Ela já existe há quase cem anos e veio antes até do que o pop/rock como conhecemos. Já havia experiências nesse sentido na primeira década do século passado. Portanto, chega de olhar para a e-music como algo estranho e aceitá-la como parte do universo. Infelizmente, a falta de informação e o embotamento mental provocam algumas distorções.
E se você acompanha o gênero desde antes do atual hype, se já apreciava Kraftwerk, acompanhou o surgimento das bandas industriais e simplesmente gosta de música em si, tanto faz se clássica, ópera ou punk, a nova safra de eletrônica (não dance music, bom frisar, porque NÃO são a mesma coisa) é uma das melhores dos últimos anos. E os resultados são os discos da banda australiana Avalanches, do combo multinacional Ladytron e da dupla francesa Air.
O Air fez o disco que já é um dos melhores do ano e abre em grande estilo o Século 21, 10 000hz Legend (saiu aqui pela Virgin). É maravilhoso. E não tem quase nada a ver com os discos anteriores. Talvez só um pouco com a trilha de Virgens Suicidas. Após a faixa de abertura/manifesto "Electronic Performers", que tem frases como "BPMs controlam nossas batidas cardíacas/ Somos sincronizados/ Mandamos mensagens via time code/ Cavalgamos ondas magnéticas", a dupla Dunckel/Godin desce com um disco de chapar qualquer um que esteja mais interessado em música do que no modo como ela é feita, acústica ou eletrônica.
Os dois franceses aprenderam a usar e dominar as modernas técnicas de estúdio, sem, contudo, perder o seu clima retrô (implícito desde a capa) ou se deixarem levar totalmente pelas máquinas. Há uma perfeita simbiose entre instrumentos analógicos e digitais, vocais e vocoders, ambiências e ressonâncias. Tem até Beck em duas faixas! O disco soa até bastante progressivo, se estes tivessem se atualizado e não virado um clube fechado.
Aí a gente parte para a multicolagem dos Avalanches, uns seis a oito caras australianos (a formação é flutuante) que mescla TUDO o que foi feito no pop dos Século 20, rock, soul, funk, hip hop, punk, disco, o quer for, tá tudo lá! O disco "Since I left you" (XL) é impressionante. É o melhor produto de manipulação de samples desde o "3feet high & rising", do DeLaSoul. A diferença é que eles acompanham tudo com baixo, bateria e percussão ao vivo.
Já sem fôlego após ouvir Air e Avalanches, você cai no disco 604 (Emperor Norton) do Ladytron (grupo baseado na Inglaterra composto por uma búlgara um japonês, dois ingleses). Aí chapa de vez! Amigos, é a melhor simbiose de electro music dos últimos 20 anos. Vai fazer a alegria tanto dos que amam ebm e new beat quanto dos que gostam de synth music em geral. É um trabalho ao mesmo tempo minimalista e requintado. Você está com um pé nos anos 80 e outro no século 21. É estranho, bonito, deprê, desafia classificações. Se é rock ou eletrônico, whatever. O fato é: pare de ouvir banda fabricada por gravadora e caia na real.
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Moby
A grande jornada do pequeno idiota
Richard Hall, o careca hiperativo conhecido por Moby, era um garoto, que como eu, ouvia Joy Division e Clash em sua tenra idade. Tocou baixo em bandas punk e depois abraçou a eletrônica como DJ e compositor, já que a idéia do faça-você-mesmo estava toda ali. Depois de ralar muito no underground foi reconhecido (primeiro na Inglaterra) pela engenhosa música que criou a partir de trechos da triulha da série Twin Peaks. Ela se chamava "Go". E realmente o impulsionou.
Passada uma década depois de "Go", Moby hoje é um popstar, excursiona com uma banda e tem um disco que já está na parada de sucessos há dois anos, Play. Para fechar a tampa nessa etapa, o "pequeno idiota" (nome do personagem autobiográfico que ele desenha no encarte de seus discos e em clipes) lançou recentemente Play, the DVD, que traz tudo o que um fã novo e antigo de Moby precisa. E já é, com certeza, um dos DVDs de música do ano.
Sabe aqueles clipes que você não vê na MTV daqui, porque esta já não passa mais clipes ou evita as coisas menos baba? Pois estão todos enfileirados, em diferentes versões, no DVD. Há desde o teste/audição para a escolha dos figuras do clipe para "Body Rock", até versões alternativas para os clipes de "Natural Blues" e "Porcelain". Do primeiro, há a versão em filme, dirigido pelo fotógrafo David LaChapelle, com a atriz Christina Ricci de santa, além de uma versão em animação com o Little Idiot e seu cão. Já "Porcelain" tem uma versão feita pelo controverso Jonas Akerlund (só um olho piscando).
Além dos clipes, o DVD traz ainda um Moby mega-mix, que junta todos os remixes feitos para as músicas de Play numa única trilha tendo como cenário efeitos de computação (desses que você faz no playstation mesmo) e o material completo de sua recente aparição no show do Jools Holland. O que a gente vê na TV aqui é só um resumo do que os artistas fazem lá. Moby, por exemplo, fez cinco números (só usaram três na TV). Dos inéditos, fazem parte a rendição para "New Dawn Fades", do Joy Divison, e uma versão acústica para "Porcelain".
Fora a parte musical, uma das coisas mais legais do disco é o capítulo "Give An Idiot A Camcorder" (de uma câmera para um idiota) no qual Moby documenta sua extensa turnê mundial, que o deixou dezenove meses na estrada a partir de 1999. Neste home movie da turnê, Moby deixa Richard Hall à vontade e nós descobrimos que ele é um cara com grande senso de humor e muito talento para fazer tipos. Ele faz diversos personagens, com várias línguas e sotaques, enquanto descreve os lugares das turnês. Pelo visto, ele ainda é gente como a gente...
De quebra, se você tiver DVD-ROM no PC, ainda pode acessar um programa chamado Beatnik, que nos permite remixar duas músicas do cara. Diversão completa. O chato é que, por enquanto, o DVD só pode ser encontrado importado. Mais detalhes em: e também em que também podem ser acessados do DVD.
dj ziggy
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groove armada
EXÉRCITO DO SOM
Esta coluna já rola pela RP há uns dois anos e desde então eu tento sempre mostrar q nariz de porco não e tomada, ou seja, q e-music é muito mais do q o q se convencionou chamar por aí de "tequino", no sentido pejorativo. Mas parece q n adianta, pq recebi email de um malandro q perguntava "pq vc só fala de tecno"? Coitado, n sabe ler, ou se lê, n entende. A gente vai levando...
A gente segue tocando a bola agora com um papo exclusivo com Tom Findlay, uma das metades da dupla inglesa Groove Armada, q começou como um projeto de DJs e hoje em dia se transformou numa banda q breve estará se apresentando por aqui. Confesso q n gostava deles no início, era um lance muito puxado pro pop house. Mas agora os caras deram uma guinada pro lado mais afro e ficou legal. Muitos dubs, pesquisas de timbres, quase na linha do Leftfield.
Perguntei pro Tom como foi q eles chegaram nesse caminho, de buscar um som mais sofisticado no novo disco, e ele explicou: “É um disco mais aberto a outras influências musicais, parece mais um trabalho de banda do que de um projeto de DJs, foi realmente pensado como um álbum pop...”
Como vai ser levar isso para o palco? Banda?
Por um lado vai ser mais complicado, mas por outro mais prazeroso. Na verdade, ao vivo n tentamos fazer uma cópia do disco, mas sim uma reinterpretação dele. Agora somos uma banda, com baixo, guitarra, bateria, percussão, sopro...
O Groove Armada ainda se apresenta como um duo de DJs?
Sim, mas agora temos diversas configurações. Uma só como DJs, outra com DJ e percussão e outra que é como banda de palco.
E qual é a q vc gosta mais, o q sente de diferente?
É difícil dizer, mas agora q nós temos o formato banda, acho o lado DJ o mais fácil. Como DJs, nós vamos numa festa, tocamos músicas dos outros, bebemos e nos divertimos. Como banda é bem mais complicado, temos q ensaiar, fazer tudo funcionar. Compararia com esportes. Quando somos DJs e como jogar uma partida de tênis, só nós dois. Como banda, é futebol.
O som também esta menos house e mais afro. P q?
Foi uma coisa natural. Quanto mais se conhece música, mais vc é levado para a África, para as diferentes estilos de percussão, para a riqueza de sons, é uma evolução natural.
O q acham de ser um grupo pop, com música nas paradas?
É estranho, mas é legal. Já vivemos muito tempo no underground e agora é hora de colher. N temos medo de ser populares...
E uma vinda ao Brasil está nos planos?
Sim, o mais rápido. A princípio iríamos num festival em dezembro, mas acho q só vai dar pra aparecer aí em fevereiro, em outro festival (pode ser o Skol Beats 2002) quero muito ir ao Brasil, estudar a percussão de vcs, comprar instrumentos e, quem sabe, gravar com músicos brasileiros...
respect!
Visite o blog em http://ehead.blogspot.com/
ziggy@rockpress.com.br
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"e" é mais do que uma letra do alfabeto
Já estamos em 2002 e a palavra "eletrônica" já não é mais novidade faz tempo. Aliás, em 2001 o termo se popularizou de forma geral aqui no Brasil. Seja pela aceitação da nova e-music por grande parte das pessoas (o sinal é que, agora, quando querem falar do visual de alguém não dizem mais punk, falam "clubber" :-) ou pela proliferação de raves, q se tornaram festas comuns nos fins de semana. Mas a letrônica é mais do q uma simples tendência. Ela já está aí desde os anos 60 no pop/rock (e deu base ao som progressivo), como tbm formatou o estilo de bandas synth pop dos anos 80, como Depeche Mode, q inspirou a ebm etc.
É dessa linhagem q surge um novo conceito de e-music, além das pistas de dança, das raves. Um novo conceito derivado da ebm, do synth, do industrial. Bandas contemporâneas como Apotygma Berzerk, Culture Kultur, Merge, Inscape, Wumpscut e outras, q fundem elementos criados a partir de bases de trance e techno para dentro de seu som. Muitas músicas destas bandas usam bases completas de trance progressivo, só que com a adição de vocais, geralmente sombrios, como se fossem filhos diretos do Front 242, q, aliás, teve seu hit "Headhunter" reformatado para o estilo trance há cerca de dois anos. E o Nitzer Ebb está com vários remixes (muito bons) de músicas antigas na praça.
Na Europa e em cidades americanas mais afeitas ao som dark, como NY e LA (e tbm nos undergrounds do Rio e SP), clubes já contam com noites inteiramente dedicadas a esse novo híbrido - q alguns já chamam de future pop -, nas quais temas trance são misturados a músicas de grupos europeus em perfeita harmonia. Desse modo, os vocais voltam, só q de uma forma nada convencional. Assim, a galera q curte ebm, synth e industrial já pode soltar as amarras dos anos 80 e ir em direção a um novo caminho. Quem vive do passado é arqueólogo... Z
Agora, a lista dos melhores eletro-sons 2001 by Ziggy:
Since I Left You, Avalanches; Felt Mountain, Goldfrapp; 10,000hz Legend, Air; 604, Ladytron; It Began In Afrika (Single), Chemical Brothers; Crystal (Bedrock Remix), New Order; Fire Wire, Cosmic Gate; Matmos; Exciter, Depeche Mode.
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Deus, não. Apenas um bom DJ
Fã adora chamar seu ídolo maior de deus. Foi assim com Eric Clapton no passado. É assim hj com Carl Cox. O DJ inglês é chamado de deus do techno. Mas esse papo de idolatria cheira a religião, nunca é uma boa. "Kill yr idols", já dizia uma camiseta bacana (usada até pelo Axl Rose) com a face de Cristo. Aliás, adorar um ídolo num altar não difere muito de ficar prostrado em frente a um palco adorando sua banda, cantor ou DJ favorito. OK gostar do q eles fazem, mas esse lance de adoração soa meio doentio. E resulta em Mark Chapmans...
Bom, apesar disso, Carl Cox continua com os dois pés firmes no chão. A fama e a fortuna não abalaram o bom humor do DJ mais gente fina do planeta. Carlinhos, que veio ao Brasil pela primeira vez no início de fevereiro após ser anunciado zilhões de vezes nos últimos anos (até parece Rush ou Pink Floyd :--)), se apresentou em praias e galpões entre o Rio e São Paulo e aproveitou a viagem para chegar junto tbm em alguns países vizinhos da Latino-América. Coxy é, sem dúvida, um dos DJs mais viajados do mundo. Mora praticamente num avião.
Tanto que, ao ser entrevistado por Ziggy, pediu uns minutos para achar um papel onde estava a sua rota sul-americana. "Hmm, deixe-me ver, depois do Brasil eu vou para... hmm... Bogotá, Colômbia e... Argentina, Peru... Maresias. Onde fica isso?" Tive que explicar que era uma praia no litoral paulistano, não um país... e depois daqui o cara ia ficar ainda uns dois meses longe de casa: Costa Oeste americana, Columbia Britânica, atravessaria os USA, passaria por Toronto e depois desceria até Miami a tempo de pegar a convenção anual de DJs, em abril. Ufa! "Tem dias que eu acordo e acho q estou em Londres. Só depois de algum tempo eu me situo". O cara deve precisar de um GPS para se guiar pelo planeta :-)))
Pois é, Carl Cox não é deus, mas é um dos maiores DJs do mundo, sim. Mixa bem ("mas não acho isso a coisa mais importante, tem q rolar uma empatia com o público"), tem boa seleção de house e techno ("De acordo com o país eu toco mais um ou outro estilo") e, acima de tudo, não se acha um popstar ("O DJ é um performer, mas ele não pode ser mais importante do que a música q toca"), diz o negrão de careca reluzente q posa todo sorridente para fotos sempre q solicitado, esteja onde estiver. "Passa lá na cabine depois da festa", me disse.
Em alguns momentos, deus até pode ser um DJ, como diz aquela música do Faithless, mas cabe a cada um fazer a sua interpretação da parada, do momento. Carl Cox, e Clapton, Jim, Jimi, Lennon, foram geniais, sim. Mas gente como eu e vc. Apenas um pouco mais iluminados. Ou tiveram um bom trabalho de seus relações-públicas. Assim como teve JC e aquele livro best-
seller, a Bíblia..
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Sven veio. E pirou!
uma das lendas vivas entre os top djs internacionais, o alemão (e quarentão) sven vath veio ao brasil pela primeira vez e tocou em sp, curitiba e rio, após passar por buenos aires e bogotá. sven está em turne mundial de lançamento de seu novo disco, fire, e também comemorando vinte anos de carreira. pois é, nos anos 80, com o projeto off, ele emplacou um hit nas paradas mundiais (até aqui), "electric salsa"; e mais adiante fez remixes para o grupo snap! depois, engatou a carreira de dj e tbm criou os selos eye-Q (trance/techno) e harthouse (house/electro), q fecharam no final dos anos 90 por falta de tempo e dinheiro. mas sven n parou e, logo depois, criou a agencia de djs cocoon, q tbm da nome a uma franquia de clubes pela europa, sendo a base em frankfurt. ele falou com ziggy qndo esteve por aqui e, famoso por fazer sets que duram mais de dez horas, sven tocou na bunker/rio de 4am ao meio-dia e depois foi fazer chill out na casa de uma galera. dormir? pra q?
pra começar, sven ficou bastante impressionado com a reação do público por aqui. ele disse: "estou bastante impressionado com a reação do público. fiquei surpreso pq sei q n sou o primeiro dj famoso de techno q vem tocar aqui, achei q vcs ja estavam habituados, mas a experiencia foi incrivel". palavras sobre o novo disco, fire: "o disco é um tributo que eu pago ao meu publico. fire é um disco para quem vai ao clube, dança, gosta de musica eletronica. e tambem serve para comemorar os meus vinte anos como dj".
o cara, q foi pioneiro no som trance, já teve dois selos e agora separa sua carreira solo de seus projetos paralelos. lança discos pela virgin, mas lança novos artistas pelo selo/agencia de dj coccon, q tbm é uma franquia de clubes: “fechei o eye-q pq eu n conseguia conciliar minha agenda como dj com a de empresário. hj, como artista solo, lanço discos pela virgin, mas, paralelo a isso eu cultivo o selo cocoon music, q esta ligado com os cocoon clubs, e tbm eh uma dj agency. a matriz é em frankfurt e temos franquias em várias cidades da europa.”
*recentemente, sven entrou na parada pop ao refazer o tema erotico do filme frances dos anos 60 j'e taime (moi non plus), junto com miss kittin...
+ nota de pé de página: durante sua estadia no rio, após o set na bunker, sven (q ja tava virado desde sp, o cara n dorme!) perdeu a linha total. na rua, saiu imitando animais e assustou criancinhas q passavam. no apê onde rolou o after/chill, ele rolava pelo chão, dizia coisas desconexas e imitou mais bichos. mais tarde, quis pagar um cafezinho com uma nota de cem dolares, além de outros detalhes. alemão segura bem onda de alcool, ele parou de sniff desde q teve um filho. mas, pelo visto, tocar muito dá um tremendo barato :-))) Z
discografia basica de sven vath:
harlequin, robot, ballet dancer (eye-Q/94), touch themes (remixes/95), fusion (virgin/98), fire (virgin/2002), mind games, contact...
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Electric head
Moby, com a cabeça fora d´água
Poucos conheciam o som de Moby até ele estourar mundialmente com o sensacional álbum Play, há três anos. O disco, aliás, levou um ano para acontecer e desde então não saiu das paradas, já tendo batido na casa dos dez milhões vendidos ao redor do planeta, coisa que muito megastar (tipo Michael Jackson) não consegue mais.
O sucesso de Play fez com que 18 fosse esperado como o disco do ano na cena pop/rock/eletrônica. Agora, tá todo mundo, literalmente, de olho em Moby, um nova-iorquino tímido, recluso, cristão, vegetariano, politizado, produtor/DJ que apareceu no começo dos anos 90 tocando em raves e hoje faz shows para multidões em mega festivais.
Para quem já conhece Moby de antes da fama, 18 não soa tão arrebatador quanto Play, que surpreendia a cada faixa, causava uma estranheza saudável. Era um disco menos dance e mais espiritual, recheado de velhos samples de vozes do blues e gospel americano. Determinadas músicas tinham uma melancolia e beleza tão profundas que podiam levar às lágrimas. Eram quase spirituals.
Em 18, isso não acontece assim tão fácil, embora os padrões estejam lá. Moby fez espécie de melhores momentos de sua carreira para quem não o conhecia antes da fama. Estão no disco o jeito minimalista de dedilhar o piano de suas composições trance/ambient de início de carreira, os vocais negros femininos de sua fase dance/house, os climas viajantes e cinematográficos, a economia de notas e recursos musicais. E, recobrindo tudo, o padrão Moby de qualidade.
Como sempre, no encarte, nada de letras das músicas, e sim, duas pensatas, sobre o processo de criação do disco, pregando a favor do vegetarianismo, emulando o 11 de setembro nova-iorquino, por acaso a data de seu aniversário (ele viu tudo da janela, como conta em moby.com). Moby vive no mundo de hoje, pensa o mundo de hoje, e sua música reflete bem isso. Não é ordinária, nem pretensa. É como o clipe de "We Are All Made Of Stars", situada.
www.ehead.blogspot.com
* notaram q o moby foi o assunto de tres colunas, ne? e q muita coisa mudou nos ultimos dois anos...